SuperMãe de Filho Autista

Relação sexual, menstruação atrasada, enjoos, confirmação. O seu filho vem aí! Para muitos casais, receber uma notícia como essa é, sem dúvida, uma grande alegria. É dada a largada, portanto, de uma maratona de nove meses: exames, quartinho, berço, fraldas, roupas, lembrancinhas, até que chega o grande dia de abraçar e aninhar o filho tão esperado e amado. Assim como é para outras mães, a advogada Tatiana Takeda viu a vida mudar quando ganhou seu primeiro filho, Theo Luiz. 

Logo no primeiro mês de vida, Tatiana observou que o filho tinha algo diferente. “Não quis pegar meu peito e não gostava de ficar no meu colo. Se eu o colocava no berço, portava-se como um bebê-anjo”, descreve. Segundo a advogada, as pessoas elogiavam o fato de Theo Luiz ser uma criança “boazinha”, mas o coração de mãe só sentia incômodo e frustração. Durante as consultas, o pediatra sugeriu que o “atraso” do bebê fosse autismo. “Foi então que começou a minha saga. Fui a vários profissionais e consegui o laudo contendo o diagnóstico quando ele estava com um ano e seis meses.”

Tatiana afirma que sua reação foi de desespero. “Nunca vou me esquecer daquele 13 de junho. Chorei, gritei, sofri… Meu filho não era ‘normal’. Meu filho era uma ‘criança com deficiência’. Uma deficiência intelectual peculiar, curiosa e que se desdobraria na mais intensa experiência da minha vida”, relata. Em um primeiro momento, Tatiana preferiu não contar para a família, com o intuito de preservar os avós de Theo Luiz.

No entanto, quando a notícia veio à tona, o marido de Tatiana e pai de Theo Luiz passou por momentos de angústia e depois começou a se dedicar mais à doença do filho. Segundo a advogada, o restante da família e os amigos mais próximos passaram a ter “dedos” e dúvidas sobre como se portar na presença do menino. “Ter um filho com deficiência não é ‘anormal’. Mas, sob o meu ponto de vista, é normal. Não encaro o impacto da notícia do autismo de uma criança como sendo mais grave do que a notícia de que outro filho é viciado em drogas ou depressivo. Tudo isso é grave e deve ser tratado da maneira adequada.” 

Recentemente Theo Luiz completou cinco anos de idade, e Tatiana afirma que, sem dúvida, foi um período muito intenso. A mãe brinca e usa a fala de um dos médicos do menino: Theo tem vida de executivo: “Após o diagnóstico, ele começou várias terapias. Já chegou a ser tratado por nove terapeutas ao mesmo tempo”, elenca. Segundo a advogada, atualmente, Theo é submetido à Análise do Comportamento Aplicada, que é um dos métodos mais aprovados no tratamento de autistas. A criança também faz acompanhamento com fonoaudióloga, terapeuta ocupacional e equoterapeuta. 

Além de todo o cuidado profissional, Tatiana acredita que o amor da família faz parte do tratamento e nada melhor do que ter um irmãozinho no processo de descobrimento. Pouco tempo depois de Theo, veio Ana Teresa. Hoje com pouco mais de um ano, ela é a grande companheira do irmão. “Ela faz parte da vida do Theo de forma tão peculiar, tão especial, que tenho certeza de que é o melhor presente que poderia dar para ele.”

Rotina familiar 

Para Tatiana, só quem tem uma pessoa com deficiência na família entende o sentido do termo “vibrar de emoção”. A mãe afirma que pequenas ações como dizer “mamã”, pedalar uma motoquinha, fazer xixi no vaso e conseguir olhar no olho são vitórias imensuráveis. “É muito gratificante poder ver seu filho esboçar comunicação ou se aproximar de outras crianças. Na nossa casa comemoramos todas as vitórias. São conquistas que, aos olhos das outras famílias, podem parecer muito pequenas, mas para a gente são imensas, intensas e emocionantes.” Ainda segundo Tatiana, já faz parte da rotina familiar estar atento a tudo, porque o autista tem pouca noção do perigo, sem falar que a observação é necessária para discutir os comportamentos com os terapeutas. 

O desejo da mãe é poder envelhecer ao lado do filho e contribuir para que ele tenha o máximo de autonomia e seja respeitado pela sociedade como o cidadão que é. Além disso, faz parte da rotina de Tatiana se dedicar ao assunto e atender outras famílias. “Oriento várias pessoas de todo o Brasil e até de fora, com base na minha experiência. Entendo que o futuro do Theo Luiz depende de seus pares e para que ele seja feliz, os demais autistas também precisam ser”, declara. A advogada é coordenadora da Subcomissão dos Direitos das Pessoas com Autismo e membro da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da Ordem dos Advogados do Brasil, seção Goiás (OAB/GO), além de blogueira da plataforma Ludovica. No blog Viva a Diferença!, que está no ar desde 2015, ela fala sobre autismo e outras deficiências. 

Por ter formação jurídica, a advogada conta que decidiu abordar o assunto e envolver o direito. Com tanto engajamento, hoje é abordada em filas de supermercado, shoppings e aeroportos por pessoas que já conhecem a história, se identificam e querem acompanhar o que é dito. “Adoro quando me gritam ou já chegam dizendo: ‘Oi, como está o Theo?’. Recebo muito carinho de meus leitores e seguidores e isso é combustível nessa caminhada, que espero ser de várias décadas.”

Ponha a boca no trombone! 

Além de orientar outras famílias sobre o autismo, Tatiana acredita que o assunto se fortalece na medida em que o número de autistas aumenta. “Existem várias teorias que discorrem sobre esse notório aumento quantitativo nos últimos anos. Uma delas diz respeito a altos teores de agrotóxicos nos alimentos”, pontua. Segundo dados do Center of Deseases Control and Prevention, dos Estados Unidos, a cada 110 pessoas, uma é autista. Sendo assim, a estimativa é de que no Brasil haja dois milhões de autistas.

Para Tatiana é importante falar de autismo e discorrer sobre essa deficiência intelectual fantástica sob o ponto de vista da criação. “Todo autista possui um potencial incrível, e é preciso detectar para o que esse potencial está apontado. O autista pode parecer alheio, mas ele está antenado a tudo que está acontecendo ao seu redor e vai se manifestar naquilo que o interessou ou o agrediu”, acrescenta. 

Como recado, Tatiana lembra que todo autista é único e possui capacidades extraordinárias que podem ser descobertas conforme as oportunidades. “Do grave ao leve, eles são pessoas dotadas de sentimentos puros e adoram estar com as pessoas de quem gostam.”

fonte: http://ludovica.opopular.com.br/editorias/comportamento/superm%C3%A3e-de-filho-autista-1.1263694

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